Use este identificador para citar ou linkar para este item: http://repositorio.ufes.br/handle/10/2973
Título: Crime e loucura na biopolítica contemporânea : ética, testemunho e psicanálise
Autor(es): Moscon, Raquel Fabris
Orientador: Costa-Moura, Renata
Data do documento: 20-Jan-2016
Editor: Universidade Federal do Espírito Santo
Resumo: À luz de Michel Foucault, abordamos aspectos determinantes para o enlace entre os campos da psiquiatria e do direito, por intermédio da noção de periculosidade termo capital na compreensão da política direcionada ao psicótico em conflito com a lei. Ao forjar uma vinculação da periculosidade intrínseca à doença mental, demonstramos como os discursos que presidem as intervenções nesse âmbito são alicerçados em concepções de cunho moral, para garantir a defesa social contra os rotulados anormais. Observamos como mecanismos atuantes na biopolítica de controle dos anormais visam à supressão dos ditos perigosos, por meio da subtração dos direitos daqueles compreendidos como ameaças ao ordenamento e ao propósito político de gerar um conjunto social sem falhas. Simultaneamente à propagação deste ideal, são deflagrados processos de eliminação de indivíduos, através de instituições de segregação, onde o deixar morrer se legitima como estratégia a serviço da biopolítica. Com base nas ideias de Giorgio Agamben, nota-se que a ideologia em voga na biopolítica atualiza uma lógica discursivo-totalitária, por vezes identificada em nossas sociedades contemporâneas, em múltiplas formas de fixação. Embora tenha seu ápice nos ambientes de exclusão, tal discurso expande suas fronteiras para além de ambientes cerceados, disseminando-se na sociedade, onde a própria população torna-se cúmplice de procedimentos de segregação. O ideal de completude difundido em sistemas regidos pelo cientificismo e pelo capitalismo provoca impactos no plano subjetivo, contaminando a mentalidade dos homens de nosso tempo; no mesmo gesto, impulsiona reações coletivas, agravando processos de violência institucional. Quanto à subjetividade, esse ideal de completude produz um estado de permanente apatia e identificação aos objetos de satisfação, acarretando a mortificação diante da vida; já em relação aos processos sociais, naturaliza a exclusão como um legítimo procedimento para a sobrevivência da população. Os HCTPS, instituições de abrigo do psicótico em medida de segurança, comprovam a operatividade desse poder mortificante, que recai não só sobre os internos, mas também sobre a subjetividade dos funcionários da instituição. A narrativa de nossa experiência contribui para destacar as consequências dessubjetivantes presenciadas em um ambiente de controle, onde a objetificação humana é fato corrente. Em razão dos efeitos vivenciados na ocasião de contato com esse poder, encontramos motivos para evocar o conceito de testemunho, numa dupla modalidade de inflexão admitida pelo termo: (a) enquanto ferramenta de resistência e de dever de memória e (b) segundo um enfoque clínico, mediante a transformação da impotência traumática em potência narrativa e de transmissão. Ao final, faz-se uma aposta na psicanálise como uma possível direção ética. A partir do ensino de Jacques Lacan em torno da psicose, sugere-se que o testemunho do sujeito pode ser um operador no tratamento, contrapondo-se à repetição traumática. A clínica da psicanálise, ao levar em conta a singularidade e a dimensão inconsciente implicada no crime, favorece a elaboração do sofrimento causador da passagem ao ato, acarretando efeitos de responsabilidade subjetiva. O testemunho, portanto, comparece como uma vertente clínica e ética de reorientação da prática sanitarista, na qual predominam formas de punição esvaziadas de sentido e sem serventia para a reparação psíquica do sujeito. Palavras-chave: Periculosidade. Biopolítica. Segregação. Testemunho. Psicanálise.
In light of Michel Foucault, we approach the relevant aspects that entwine the fields of psychiatry and law, through the notion of danger - a fundamental term in understanding the policy directed to the psychotic in conflict with the law. To forge a link of intrinsic hazard to mental illness, we show how discourses that govern interventions in this area are grounded in moral conceptions, to ensure social defense against abnormal labeled. We have observed how active mechanisms in the biopolitics of control of those known as abnormal are aimed at the elimination of so-called "dangerous" by subtracting the rights of those viewed as threats to order, and to the political purpose of generating a social set without fail. Simultaneously with the spread of this ideal, they are triggered elimination processes of individuals, through segregation institutions, in which to let one die is legitimized as a strategy in the service of biopolitics. Based on Giorgio Agamben's views, we note that the ideology in vogue in biopolitics updates a discursive totalitarian logic sometimes identified in our contemporary societies in many forms of fixation. Although it has its apex in the exclusion environments, such discourse expands its borders beyond more constrained environments, spreading in the society where the population itself becomes an accomplice in segregation procedures. The ideal of completeness widespread in systems governed by scientism and by capitalism causes impacts on the subjective plane, contaminating the mentality of the people today; similarly, it boosts collective responses, aggravating cases of institutional violence. As for subjectivity, this ideal of completeness produces a permanent state of apathy and identifaction with the objects of satisfaction, resulting in mortification regarding life; however, in relation to social processes, it naturalises exclusion as a legitimate procedure for the survival of the population. The HCTPS, the psychotic shelter institutions in security measure, demonstrate the operability of this mortifying power which falls not only on the inmates internal, but also on the subjectivity of the institution's employees. The narrative of our experience helps to highlight the de-subjectifying consequences found in a controlled environment, where human objectification is actually present.Because of the effects experienced when in contact with this power, we find reasons to evoke the concept of testimony, in a dual mode of inflection found in the term: (a) as a resistance tool and memory duty and (b) according to a clinical perspective, by transforming the traumatic impotence into a narrative of power and transmission. At the end, it is a bet on psychoanalysis as a possible ethical direction. From the teaching of Jacques Lacan in relation to psychosis, it is suggested that the testimony of the person can be an operator in the treatment, opposing the traumatic repetition. The psychoanalytic clinic, when it takes into account the subject’s uniqueness and their unconscious dimension implicated in the crime, favors the development of the cause of suffering from passage to the act, leading to subjective responsibility. The testimony, therefore, appears as a clinical aspect and ethical reorientation of sanitary practice, in which it predominate forms of punishment tha has no meaning and it no use for psychic repair of the subject.
URI: http://repositorio.ufes.br/handle/10/2973
Aparece nas coleções:PPGPSI - Dissertações de mestrado



Os itens no repositório estão protegidos por copyright, com todos os direitos reservados, salvo quando é indicado o contrário.